blogzine da chili com carne

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Bestiário Ilustrissímo II : Bala ... lançamentos de 6 e 7 de Fevereiro!





Bestiário Ilustríssimo II /  Bala de Rui Eduardo Paes é o nono e novo título da provocante colecção THISCOvery CCCHannel.

Como o livro é "duplo" serão feitos dois lançamentos, a saber:

- 6 de Fevereiro na Casa dos Amigos do Minho (Intendente), com discursos de Gonçalo Falcão (designer, músico, crítico de música) e Gil Dionísio e concerto de uma banda especialmente formada para o efeito: Gil Dionísio & Os Rapazes Futuristas.

- 7 de fevereiro na SMUP (Parede) com palavreado de Pedro Costa (Clean Feed) e José Mendes (jornalista cultural) e concertos de Wind Trio e Presidente Drógado & Banda Suporte.


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Bestiário Ilustríssimo II / Bala é a continuação de Bestiário Ilustríssimo, “(anti-)enciclopédia” de Rui Eduardo Paes sobre as músicas criativas editada em 2012 e reeditada em 2014 com nova capa e novas ilustrações de Joana Pires. Como esse primeiro livro, está dividido em 50 capítulos, cada um dedicado a uma figura ou conjunto de figuras. Desta feita, porém, a 50ª parte autonomiza-se e constitui como que um outro livro. Trata-se, pois, de dois livros num só volume, um novamente ilustrado por Joana Pires, o outro por David de Campos.  

O jazz criativo, a música livremente improvisada, o rock alternativo e os experimentalismos sem rótulo possível voltam a ser as áreas cobertas, sempre associando os temas com questões da filosofia, da sociologia e da teoria política, num trabalho de análise e desmontagem das ideias por detrás dos sons ou das implicações destes numa realidade complexa. Os textos reenviam-se entre si gerando temáticas que vão sendo detectadas pelo próprio leitor, mas diferentemente de Bestiário Ilustríssimo há um tema geral nesta nova obra de Paes: o tempo.

A tese é a de que quem escreve sobre música, mas também todos os que a ouvem, está sempre num tempo atrasado em relação à própria música, um “tempo-de-bala”, de suspensão de um tiro no ar, como no filme Matrix. O alinhamento dos capítulos não se organiza segundo tendências musicais ou arrumando os nomes referidos em sucessão alfabética, como numa convencional enciclopédia. Todos os protagonistas e suas músicas surgem intencionalmente misturados, numa simulação do caos informativo em que vivemos nos nossos dias. Propõe-se, assim, que se leia Bestiário Ilustríssimo II / Bala como se se navegasse pela Internet, procurando caminhos, relações, cruzamentos, desvios.

A mente não é uma estante, é um bisturi.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ccc@angoumerde.fuck.off.2015


Chili Com Carne will be at FOFF!!!
see you there!

sábado, 24 de janeiro de 2015

No papel e em três vias! O Relatório 2014 à antiga!

Amanda Baeza, Sofia Neto e Hetamoé a apresentarem o QCDA #2000 no Alt Com, Malmö

Sim, o mundo dá voltas e voltas para ir parar ao mesmo sítio... Desde 2012 neste blogue que escrevo um relatório sobre edição independente e fanzines de BD em Portugal para manter a chama acesa de uma tradição que começou em 2000 pela Bedeteca de Lisboa no seu boletim Contador-Mor e mais tarde para o seu sítio oficial bedeteca.com (desactivado ou desactualizado desde 2011) em que se fazia um resumo do ano em volta das várias áreas da BD em Portugal nas seguintes áreas: fanzines, crítica, autores, edições, festivais, investigação e movimentos.

Entretanto, foi-me desafiado por João Machado, do Clube do Inferno, para publicar o artigo anual relativo a 2014 num fanzine que ele prepara intitulado de Maga. Voltar ao papel impresso faz todo o sentido... afinal para além do Contador-Mor, houve também os relatórios das discussões de 1996 e 1999 promovidas pela Bedeteca de Lisboa e a Associação do Salão Internacional de BD do Porto, recolhidos no livro Hoje, a BD  1996/1999 (Bedeteca de Lisboa; 2000) - um "livro branco" sobre o "estado da nação" e dos poucos registos sobre a BD portuguesa em livro.

A verdade é que 2014 foi um ano de expansão da BD em geral no seu diminuto mercado, e o que passou "em cima" (no mundo comercial) também foi acompanhado "em baixo" (no "underground"). Corre-se o risco de fazer listagens futeis, a julgar pela folha de apontamentos que já fiz porque quase todos os pontos que costumo focar nestes relatórios - o número de edições e de eventos, a publicação no estrangeiro de autores portugueses, as visitas de estrangeiros ao nosso país, etc... - revelaram aumento, não só em quantidade mas em qualidade.

Se o "underground" sempre foi uma cena de resiliência - seja na BD seja música ou noutra área criativa qualquer - também é o sítio de pensamento crítico e de atitude e de actos de ruptura.

Desde dia 7 de Janeiro que vivemos noutro mundo e publicar o relatório em papel invés de colocar imediatamente em linha parece-me um bom obituário para um mundo passado e muito diferente deste que vivemos agora, com o Futuro mais "incerto" do que nunca. No que toca à edição independente de BD em Portugal - ou à BD em geral - até parece um futuro risonho. "Risonho?  Deves estar a brincar!?" dirão... Meus caros, depois de tanta miséria franciscana nos últimos 10 ou mais anos, o que está acontecer, com a crise (oficialmente extinta segundo o nosso Governo!) e tudo o que isso significa, 2014 foi uma alegria de edições e acontecimentos. Seguindo a lógica, 2015 vai ser uma galhofa!!!

Para ler o artigo, que sairá no tal fanzine (há quantas décadas que não se edita um fanzine de crítica / ensaio sobre BD neste país?), contactem o Clube do Inferno: clubedoinferno.tumblr.com

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Gato Mariano Não Fez Listas em 2014 (para Hipsters sebosos da Internet)

Ontem o jornalista Tiago de Bernarda deu vida em papel ao seu alter-ego / personagem Gato Mariano numa festa no sítio mais hipster de Lisboa, o 1ºAndar - a lógica é se queres provocar alguém tens de ir ao sítio onde elas estão, certo?
O zine é um A2 dobrado com uma impressão impecável que pouco ou nada conta a não ser que o Mariano tem bom gosto e acha os Dead Combo um peidinho! Estava a ver que era o único português a achar essa banda de intragável... Exercício de estilo de quem começou a fazer BD às escondidas e a criticar discos de Pop/Rock português em BD usando o tal gato. Para esta "história" no entanto o autor ignorou o papel do gato (ou seja de fazer crítica musical) e entrou num esquema de non-sense à Ren & Stimpy (talvez porque os gatos sejam da mesma ninhada gráfica) e à "Buraco do Amor" do Camarada Ferreira. Um gesto de rebeldia para provar que a BD portuguesa não é feita de livros de choradeira pseudo-sentimental... e sebosa! Gracias!

No gracias: é esta mania dos sacos a protegerem os zines, que eu saiba um zine é para ser uma forma de publicação barata, democrática e anti-elitista, e não para fazer dele objectos colecionáveis e impolutos para o OLX ou coleccionadores com retenção anal! Quem começou com esta mania foi a Imprensa Canalha e a Opuntia Books mas até fazia sentido porque os "livrinhos" traziam uns "brindes" - desde mata-insectos a fotografias encontradas. Cortar árvores tudo bem mas usar petróleo para um saquinho "hipster" dispenso... Espero que o Bernarda tenha pago os 10 cêntimos por cada saco da Taxa Verde por causa desta parvoíce!

Papá em África quase ESGOTADO ... recuperamos mais 9 exemplares ... E ainda saiu uma crítica no JL! E no Expresso!

              
25º volume da MMMNNNRRRG, editado por Tommi Musturi e Anton Kannemeyer. Posfácio por Marcos Farrajota e Crizzze.

64p. a cores, capa dura, álbum A4
ISBN : 978-989-97304-8-9
500 exemplares

PVP: 15€ à venda na loja online da CCC e na El Pep, Feira do Livro de Poesia e BD, Livraria do Simão (escadinhas de s.cristovão, lx), Mundo Fantasma, Bertand, Pó dos Livros, Letra Livre e BdMania.

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O que é que choca mais a um puritano do que uma imagem pornográfica? Um negro a foder uma branca! Os Public Enemy “rapavam” isso no LP Fear of a Black Planet (1990), onde aliás, o sul-africano Anton Kennemeyer (n.1967) foi roubar o título para uma exposição de pintura em 2008.

Antes demais Anton usa muitas vezes o pseudónimo de Joe Dog, criado em 1992, para assinar BDs, porque ouvia música punk e entrou naquele esquema do pseudónimo podre, como é hábito dessa subcultura. Além do mais, nesse mesmo ano juntamente com Conrad Botes (que nos visitou recentemente numa exposição na Fundação Gulbenkian) tinham criado revistas de BD bastante polémicas na África do Sul. A dois anos antes do fim oficial do Apartheid, um pseudónimo sempre ajudava a ter menos problemas com a sociedade africânder.  O título mais famoso foi o Bitterkomix, onde Joe Dog e Botes faziam BDs que chocavam os africânders e os supostos liberais ingleses, denunciando a loucura ideológica e religiosa do Partido Nacional, perito em segregação racial e deseducação sexual e colocavam em questão a identidade do sul-africano, especialmente a do homem branco. Não será à toa que o artista Joe Dog tenha colaborado com os Die Antwoord, também eles iconoclastas com os códigos de identidade naquele país.

Papá em África é uma crítica à dominação racial e colonial que atravessa, ainda hoje, em pleno pós-apartheid, a sociedade sul-africana, mostrando como certas estruturas sobrevivem à destruição dos quadros legais que lhes deram origem. Mas não se enganem, não vão encontrar na obra de Anton, caminhos ou sonhos para uma “nação arco-íris”; nem é oferecida nenhuma reinvenção do lugar do negro na BD ou alguma espécie de “herói” negro da resistência que pudesse ser “voz” da população negra sul-africana, de que Anton, aliás, na realidade não faz parte nem tem a pretensão de ser.

O objectivo central de Papá em África é pontapear com escárnio e pontaria certeira a hipocrisia e a (má) consciência da África do Sul branca, num pós-apartheid lobotomizado. Anton sampla e crítica corrosivamente o imaginário colonialista e racista, como aquele oferecido por Hergé em Tintim no Congo (1931), álbum que Anton admite ser a sua Bíblia visual, onde volta sempre para sacar mais uma imagem ou uma sequência narrativa.

Numa entrevista o autor adverte sobre esse livro de Hergé: (…) eu penso que não é um bom álbum, é mais direccionado para um público infantil. E é aí que o problema reside para mim. Porque se fosse dirigido para um público adulto, ele funcionaria melhor. Mas porque é para crianças, elas vêem os estereótipos e (…) pensam que esses estereótipos são reais (…). Eu lia o álbum com a minha filha, quando ela era muito jovem, talvez com dois anos, e a certa altura, ela perguntava-me: “o que este macaco está aqui a fazer?” e eu dizia-lhe: “Isso não é um macaco. É uma pessoa negra.” E ficava completamente confusa, não conseguia perceber: “estes são os macacos!”

Após processos judiciais, nos últimos anos e em alguns países (como no Reino Unido), o acesso à obra Tintim no Congo tem sido restringido à população adulta ou explicitamente sinalizado. Na sua terra natal, na Bélgica, Tintim no Congo, apesar da acção judicial instaurada pelo congolês Bienvenue Mbutu Mondondo em 2007, continua a circular sem problemas. Recordamos que Mondondo queria que a edição deste álbum de BD tivesse uma introdução a explicar que se trata de uma obra feita sobre a perspectiva colonialista da época, para que os estereótipos racistas que o álbum vincula pudessem ser entendidos à luz dos nossos dias. Tal não foi permitido e os fãs aplaudiram cegamente o veredicto sem se olharem ao espelho.

Em Portugal, o primeiro país a traduzir a obra de Hergé, pelas mãos do padre e sociólogo Abel Varzim e por Adolfo Simões Müller, director do jornal infantil O Papagaio, Tintim no Congo foi rebaptizado em 1939 precisamente para essa publicação como Tim-Tim em Angola (seja como for para muitos ainda hoje, África é apenas um país enorme). Aqui, a obra não é alvo de qualquer controvérsia e ainda hoje conseguimos encontrá-la sem dificuldade ou especiais advertências nas secções infantis/ juvenis das livrarias. Na edição de 1996, da Verbo, no seu interior continua lá a degradante expressão “Siô”...

Chegamos ao fio condutor que liga o trabalho de Anton a Portugal, em que só a MMMNNNRRRG é que poderia editar um álbum destes - perdoem-nos a falta de modéstia. Esta selecção da obra de Anton, quer como autor de BD quer como pintor deveria reavivar todos os “traumas” que o branco, seja ele sul-africano, europeu ou português, tem em relação ao negro, fazendo repensar como a relação com esse outro é constitutiva da própria concepção de si mesmo e de como esses espinhos históricos que são a escravatura, a colonização e a segregação racial estão cravados no convívio e interacção social, nas relações político-económicas entre “norte e sul” e no próprio capitalismo. A crítica à sociedade sul-africana do pós-apartheid cabe que nem uma luva a países ex-colonialistas como o nosso. Poder-se-á estender a crítica de Anton em Preto e Die Taal à questão da lusofonia e da língua portuguesa? Vejam-se palavras como “catinga”, “escarumba”, “mulato” ou expressões como “trabalhar como um preto”, “e eu sou preto, não?” Poderemos nós encontrar em fenómenos como o do pseudo-Arrastão na praia de Carcavelos, criticamente esmiuçado no documentário de Diana Andringa gratuitamente disponibilizado na Internet, como sinais parecidos àquela distorção da realidade fabricada pelo misto de sentimento culpa e preconceito da população branca sul-africana que os faz temer e esperar uma “revolta” bárbara dos negros? 

Será que África do Sul desmemoriada do pós-apartheid, criticada por Anton, tem alguma semelhança com o Portugal “pós-colonial” que teima em vangloriar-se dos “Descobrimentos” (veja-se o novo museu inaugurado no Porto, World of Discoveries, mas também os manuais escolares de história) e de uma colonização “branda” (o dito luso-tropicalismo), sem assumir a sua quota-parte na chaga global que é a exploração e subjugação dos países africanos e dos afro-descendentes onde quer que estes nasçam? É que não sejamos ingénuos ou hipócritas, Portugal foi o primeiro e maior traficante de escravos africanos no Atlântico, portanto, um dos maiores responsáveis do chamado “holocausto africano”; foi dos últimos países europeus a reconhecer a independência das suas colónias em África - quem ainda duvidar que leia Viagem ao Fundo das Consciências (Colibri; 1995) de Maria do Rosário Pimentel. Se os portugueses puderam até aqui “fechar os olhos” e “fazer ouvidos moucos” às históricas trapaças portuguesas no Ultramar, eis que com o acelerar da globalização, com o desnorte português e europeu e com a progressiva ascensão a potências mundiais do Brasil (onde o movimento negro e afro-cultural tem peso) e de Angola (onde as chagas da colonização e da guerra são grandes), a história fará rewind e vir-se-á chapar na nossa cara.





 

 

  

 


   

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Feedback:  o melhor álbum publicado em Portugal durante o corrente ano (...) Atenção que isto não é assunto para rapazes ou raparigas sensíveis. Comicology ... um petardo editorial (...) é o melhor álbum traduzido publicado este ano em Portugal e também um dos mais significativos de sempre na edição nacional. A Garagem ... Kannemeyer ajusta contas com a Banda Desenhada e com a África do Sul. E arrasta o leior consigo José Marmeleira / Público ... Kannemeyer não é um iconoclasta, é um puro canibal Ma-Schamba Não há nenhuma mentira contada em Papá em África. Provavelmente a quantidade de Errado é desinteressante para quem está à espera de encontrar críticas “complexas”. Ao usar os “conguitos” como lego irónico, Kannemeyer revela um subconsciente obsceno e consegue gargalhadas garantidas, mas é no meio do livro, quando descreve com rigor uma violação, só para apresentar como “punchline” o racismo estrutural do tratamento jornalístico, que o autor arrisca mais. Para não contradizer o início do parágrafo, o que isto quer dizer é que à primeira vez que li senti um frio na espinha, não só por desgosto, mas por não perceber “a piada”. E se o livro, primariamente dirigido a “educar” brancos sobre uma questão, estivesse a rir de mim? Foi a única vez que me ocorreu que talvez isto não tenha graça nenhuma. João Machado / Clube de Leitura Gráfica ... Até quando terá a África do Sul democrática de usar o Apartheid como panaceia justificativa para o que não consegue resolver? Ou o Brasil o colonialismo (e/ou a ditadura)? Ou Israel o Holocausto? Sem escamotear o que quer que seja, estas continuam a ser realidades difíceis demasiado úteis e convenientes, também porque muitas vezes servem para dar respostas fáceis. O importante de Papá em África é pois não deixar circunscritos os demónios que evoca. João Ramalho Santos / Jornal de Letras ... **** (4 estrelas) / Não é um livro fácil nem servirá aos maniqueístas (...) mas cada prancha é um convite desassossegado ao pensamento sobre atitudes que escolhemos assumir (...) Sara Figueiredo Costa / Expresso

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Checkem lá a presença humana...

O Camarada Lopes voltou do Brasil e trouxe umas quantas coisas de lá que sinceramente já não há muita paciência divulgar mas foi justamente a peça mais pequena que teve maior efeito. Fim (Beleléu; 2014) é um A6 (formato que até há em Portugal com as colecções O Filme da Minha VidaQuadradinho) com 40 micro-BDs de Rafael Sica, feitas sem sentido, como se poemas desenhados fossem. Devedor à linha "ratada" de Fábio Zimbres, no entanto algumas composições de páginas e temas lembram o suiço Baladi, naquele abandono de paisagens e de emoções. Longe do extremo "non-sense" de Ordinário (Quadradinhos na Cia; 2010) em que Sica já mostrava ser um autor com muito potencial, este "Fim" parece ser antes um excelente início para algo mais profundo mas não se sabe se naqueles trópicos o pessoal quer isso...

Ward Zwart, excelente desenhador que participou no nosso MASSIVE, enviou alguns zines seus do quais destaca-se Moon (2014) que é impossível de não comparar a O Espelho de Mogli porque são tantas as coincidências entre si: ambos autores são flamengos, os formatos dos livros são quase idênticos, há alguma estrutura narrativa igual (duas vinhetas por tira, quatro tiras por página) e até acontece que aparece uma página inteira com um animal! (um orangotango no Espelho, uma coruja neste Moon). As diferenças também são muitas, a temática recorre à infância / puberdade (tempos em que o autor via os X-Files!?) para mostrar os mistérios da natureza - não muito longe e até pelo registo gráfico dos trabalhos de Amanda Vähämäki ou Michelangelo Setola. O melhor ainda é uma bela sequência abstracta em que o Zwart desenha usando colagens de desenhos seus - tal como0 o fez na capa...

Vieram de Badajoz a Lisboa, recentemente o casal responsável pela Aristas Martinez. Regalaram-nos com os dois últimos números da sua revista literária Presencia Humana Magazine (2014), sendo o último número dedicado à editora Valdemar, um marco na literatura fantástica em Espanha. A revista aliás é sobre isso mesmo, literatura fantástica, não deixando de ter contos, BDs, artigos ou ensaios sobre a matéria. Impressa a duas cores, consegue o equilíbrio perfeito de fazer aquele vistaço vaidoso que os espanhóis adoram e ao mesmo tempo ser sóbria e funcional. Uma equação gráfica que quase ninguém consegue resolver mas que a PH (como é carinhosamente conhecida) tem conseguido fazer desde o primeiro número. Se Clack Ashton Smith diz-vos algo mas também não desdenham conhecer os Magma, ou quiserem ler a sabedoria Pulp de Daniel Ausente (excelentes artigos dele, diga-se!) ou uma resenha sobre o Festival de Sitges (o "Fantasporto" de Espanha!)... esta é a vossa revista! E sempre treinam o castelhano!
Outra publicação é Fanzinerama (2014) que é um... ehm... fanzine!?... com desenhos do Roberto Massó no seu típico imaginário "masters of the universe jodido meets power rangers primitivos" em que as pessoas, o público, ehm... Perdi-me...
É um caderno com desenhos do Massó mas que as pessoas podem intervir nele, ora desenhando e escrevendo nele e até podem recortar e colar imagens de Massó (de uns suplementos que acompanham o caderno) fazendo assim cada um a(s) sua(s) BD(s) à vontade do freguês - é um novo tipo de "comix-remix" que não tinha ainda processado! Muito fixe a ideia mas pelos vistos a ideia anda por aí porque a "nossa" Mundo Fantasma também fez algo parecido... em risografia que é mais chique! (e como vingança por estar a chamar os espanhóis de vaidosos!)

Zona de Desconforto - no melhor de 2014 pela loja Matéria Prima


Eis novo livro da nossa colecção de livros de viagem para quem gosta de viajar sem apanhar transportes e gastar dinheiro, a LowCCCost.

Zona de Desconforto é uma recolha de relatos de autores de Banda Desenhada que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal
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Os autores apesar de terem sido "obrigados" a trabalharem em registo autobiográfico para relatarem as suas experiências, que vão da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas, ainda assim o estilo pessoal de cada autor não foi prejudicado.

Organizado por ordem cronológica, o livro começa com André Coelho, que estudou em Barcelona, em 2006, e expõe as questões nacionalistas catalãs, mas a experiência similar de Amanda Baeza no País Basco (estudou em Bilbao, em 2010) é mostrada de uma forma oposta e "leftfield".

Holanda vai ser uma coincidência de país para a "globe trotter" Christina Casnellie (em 2006) e um ano mais tarde, José Smith Vargas, maior é a coincidência é que  ambos desmontam a sociedade holandesa e a "pan-ibérica".

Londres também é uma "coincidência" para encontramos Ondina Pires (ex-Pop Dell'Arte, ex-The Great Lesbian Show) entre 2008 e 2010, e Francisco Sousa Lobo (vencedor do concurso "500 paus") entre 2010 e 2013, que usam "comic relief" q.b. para contar a depressão que se sente na capital inglesa, e no caso de Lobo esta sua BD é uma "companion" para o badalado romance gráfico O Desenhador Defunto. Mas antes, David Campos complementando a sua experiência da Guiné-Bissau (relatada no Kassumai) visita o resort  de Cap Skirring (Senegal) em 2007 para alertar-nos da exploração não só de recursos económicos mas também sexuais de África.

Em 2013 ainda temos as instrospecções políticas de Tiago Baptista em Berlim, durante uma residência artística; e mais extremas as deslocações sul-americanas de Júlia Tovar para Buenos Aires, decidida a criar a sua família, e com alguma ponta de ironia Daniel Lopes mostra o Brasil como o "futuro", na sua recente visita profissional, como académico.

Esta edição foi coordenada por Marcos Farrajota, frustrado e impotente em testemunhar a emigração, em alguns casos forçada, dos seus amigos e conhecidos à procura de melhores condições de vida, num país que deixa um filha-da-puta de um político alarvar bitaites de que "o melhor que os jovens portugueses têm a fazer é emigrar".

O livro não tem uma "agenda política" porque deixa que o relato de cada autor siga o seu rumo, com saldo positivo ou negativo, deixando ao leitor a interpretação que desejar.

Longe de nós impormos seja o que for...

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Arranjo gráfico: Joana Pires; Capa de João Fazenda; Apoios do IPDJ, Alt Com / Tusen Serier

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o livro custa 10€ (50% desconto para sócios da CCC, jornalistas e lojas) à venda na loja online da CCC e na Palavra de ViajanteArtes & Letras, Pó dos LivrosEl PepMundo Fantasma, LAC, FNAC, Feira de Poesia e BD, Bertrand, Letra Livre e Neurotitan.

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Historial: lançado na Palavra de Viajante, a livraria mais bonita de Lisboa a 5 de Abril de 2014 ... vencedor do Melhor Álbum Português pela BD Amadora 2014 ... uma das melhores "graphic novels" portuguesas de 2014 segundo Pedro Moura no sítio de Paul Gravett ...na lista do Melhor de 2014 pela loja Matéria Prima ... 

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Feedback: Grande edição! Podes dizer ao Sousa Lobo que graças a ele voltei a acreditar na BD portuguesa. Que estouro. André Coelho (por e-mail 04/04/14) ... já li o livro, falta o Francisco que guardei para o fim, gostei bastante, é bom os trabalhos serem tão diferentes, acho que as histórias conseguem mesmo levar-nos para outros tempos e espaços geográficos, fizeram-me sentir mesmo fora daqui e todas as problemáticas que isso acarreta, não que sentisse um profundo envolvimento mas consegui deslocar-me... isso é bom. como se de estória em estória saltasse de cidade em cidade. Depois vou ler a história do Francisco e reler tudo de seguida a ver como é... Tiago Baptista (por e-mail 04/04/14) ... 'Tá bem apanhado, o título. Li num parque rodeado de turistas, a pensar que ia compensar a sensação "Portugal, Inatel da Europa". Não tenho a certeza, e parece que apanhei a sensação turística no obverso. O Lobo, se calhar porque parece ter mais espaço que os outros, apanha bem a coisa 'tuga: é como rir de alguém que tem um problema sério. Fora isso acho que o livro caiu ao chão quando li a história dele, de tão pesada que era. O género autobiográfico é fodido e em vez de heróis ficaram os episódios. O Baptista e o Coelho parece que quiseram meter lá os heróis em vez deles. A Amanda Baeza é um pequeno ovni... já tinha falado com ela sobre este bolo basco pesadíssimo, que estou a pensar fazer um dia. Outros, tendo estilos que me pareceram familiares, não retive tanto. Curti algumas piadas da história da Tovar, e se já vi a cena de estar nu noutro lado, ri na mesma quando vi. Fixe o traço do Campos e a deambulação anti-Club Med. Fiquei a saber o que é um flessenlikker e vou ver se arranjo um, para poupar uns trocos e viajar mais. Astromanta (por e-mail 17/04/14) nice book, is an architecture/city sketchbook of tales Valério Bindi do Crack Festival (e-mail 20/04/14) ... Os autores destas histórias a vermelho, nada inocente, seguramente, poderão usar diferentes intensidades dessa leitura dupla. Podemos lê-las como pequenos apontamentos autobiográficos ou impressões do “lá fora”, mas perder-se-ia parte do seu poder colectivo. Mas é na sua conjunção, e no seu gesto editorial total, que percebemos a responsabilidade assumida na identificação do desconforto apontado. Pedro Moura / Ler BD ... Dez autores com registos muito distintos criam uma harmonia que já vai sendo regra nos livros colectivos da editora e que deve mais à mundividência partilhada do que qualquer esforço de homogeneização. (...) tem algo de antologia de BD contemporâena, mas a sua verdaderira vocação é a de dar a ver / ler o mundo estilhaçado que nos coube Sara Figueiredo Costa / Expresso ... De facto todas as histórias de Zona de desconforto trabalham a percepção que qualquer grau de segurança está a um passo de ser exposto quando se dá um passo no desconhecido, mesmo um desconhecido próximo. E para abordar o mundo é necessário cada vez mais dar esse passo. JL ...



André Coelho

David Campos

Francisco Sousa Lobo

Amanda Baeza

Tiago Baptista

Daniel Lopes


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

QUADRADINHOS : Sguardi sul fumetto portoghese / Looks on Portuguese Comics no Ler BD



Treviso Comic Book Festival is the third most biggest Comics Festival in Italy but still is a relaxed event and most important it has a good eye on comics made outside of Italy! Blame Alberto Corradi for this, as curator he already made exhibitions about Sweden, New Zealand, Denmark and this year... Portugal!

And for the first time there's a catalogue thanks to the effort of Treviso Fest, Mimisol and Chili Com Carne with the important support of Portuguese government - DGLAB and IPDJ institutions.

This catalogue is a comics anthology made by the artists invited for the festival's exhibition and includes a preface by Marcos Farrajota and a small History of Portuguese comics by Corradi. Most of the comics have been published in Portugal but then... have you seen them?

So you can enjoy 88 pages of comics (most are full colour) of a wide range of authors, coming from the underground to the international mainstream and from the new breed to older artists: João Fazenda, André Coelho with Manuel João Neto (same team of Terminal Tower), José Smith Vargas, Ana Biscaia (Best Portuguese Illustration Prize 2013) with João Pedro Mésseder, Nuno Saraiva, Francisco Sousa Lobo (The Dying Draughtsman, Art Review), Afonso Ferreira (Love Hole), Pedro Burgos, Filipe Abranches, Miguel Rocha with Susana Marques, Joana Afonso with André Oliveira, Jorge Coelho (Image, Marvel) with Paul Allor (from USA), Pepedelrey and Rudolfo (Negative Dad).

Book written in Italian and English.

You can buy it HERE (15€, free postage for EU countries)
and soon in the following stores:





reviews: in Ler BD blog in Portuguese here ... one of best Portuguese "graphic novels by Pedro Moura / Paul Gravett

domingo, 18 de janeiro de 2015

Auf auf

Çuta Kebab & Party / ÚLTIMOS 10 EXEMPLARES


Çuta Kebab & Party é um projecto devoto à música popular e "fast-food" euroasiáticas, protagonizado por três produtores portugueses que se deixaram seduzir pela colisão entre antiguidade, modernidade, tradição e imediatismo que ambas propõem. Durante uma semana a fluxo de Falaffel, Kebabs e Narguilé, foi produzido um EP que homenageia esta cultura híbrida, evocando-a a partir de uma perspectiva ocidental, com o uso de "found tapes" oriundas de bairros turcos de cidades europeias, gravações feitas em "kebab shops" e ritmos da música tradicional turca e curda.

O disco de 10" de estreia deste projecto é uma co-edição Chili Com Carne e Faca Monstro. Edição limitada a 300 exemplares, a capa é em serigrafia e inclui um encarte-poster com ilustrações das músicas por André Lemos, Bruno Borges, João Chambel, Jucifer, Marcos Farrajota, Margarida Borges e Ricardo Martins.

Porquê é que nos pusemos a editar um disco em vinil? Porque achamos este projecto de suma importância cultural para o nosso país cinzento e rural. Negámos África até há pouco tempo ficarmos de Kuduru. E o nosso lado sarraceno? Aquele que nós absorvemos de tal forma que já nem sabemos que somos mais mouros que celtas? Çuta Kebab & Party será um marco na História como o regresso do espírito árabe à cultura portuguesa mesmo que seja IDM com "found-tapes" turcas.
De resto, até prova contrária, não nos interessa editar mais nenhum outro disco.
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FIRST VYNIL RECORD at CHILI COM CARNE
(and maybe the last one, we like only this music to make a physical record!)
Çuta Kebab & Party it's project devoted to popular music and Euro-asian fast-food, made by three Portuguese producers seduced by the clash of Ancient, Modern, Tradition and Contemporary.
During one week consuming Falaffel, Kebabs and Narguilé, they produced this EP, true homage to hybrid culture in an Occidental perspective using "found tapes" from Turkish neighborhood in European cities, recordings in Kebab shops and Turkish and Curd traditional rhythms.
It's an edition of 300 copies, silkscreened with poster and 6 different illustrations by Ricardo Martins, João Chambel, André Lemos, Margarida Borges, Marcos Farrajota, Jucifer and Bruno Borges.
credits: released 25 June 2011 at Feira Laica / Trem Azul, all tracks produced by Pedro What, HHY and Ghuna X. Mixed by HHY. Mastered by Ghuna X at The Environment. Released by Faca Monstro and Chili Com Carne
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compra / BUY VINIL últimas 10 cópias / last 10 copies (16 euros; 50% desconto para sócios CCC, jornalistas e lojas / 50% discount for stores) @ Chili Com Carne shop, Matéria PrimaStaalplaatDigelius, Urgence Disk/ and Neurotitan DIGITAL na / in facamonstro.bandcamp.com

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Historial: lançado dia 25 de Junho 2011 na Trem Azul, no âmbito da Festa da Feira Laica ... lançamento portuense no dia 5 de Agosto 2011 no Café au Lait ...
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Feedback: Yes Kebab rules. I like it a lot as a vegetarian. I must find my dancing shoes. Jyrki Heikkinen ... the Kebab mix, I really like first song on A side and the “Halhat” on B side, perfect for LSD kebab fiesta!!!! its a good LP for my collection of “strange vyniles” Bertoyas ... Kebab 10" is a great record. Our boss, Stephane, really liked it! VP / Ici d'Ailleurs