blogzine da chili com carne

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Sector paralelo



Sektor 304 : Communiphones (New Approach; 2014)

O Estado português quer combater a economia paralela quando é esta que faz mexer o planeta (esmolas, benefits, putas, drogas, armas) sem mexer nas finanças dos ricos (essas muito mais paralelas que um gajo de uma oficina ou de um café) e oferecendo automóveis de luxo para quem pedir facturas de pintelhos - carros de luxo!? isto sim é que me parece uma economia paralela! O que isto tem haver com este CD de Sektor 304? Nada! É só porque este disco não me "bateu" e não sei o que dizer dele.
É um disco "paralelo" ao que a banda tem feito, isso sim dá para perceber. Começaram por ser um duo (o João Pais Filipe e o Camarada Coelho) e passado uns discos passaram a quarteto (com a inclusão de Henrique Fernandes e Gustavo Costa) mas neste disco temos uma gravação de 2012 na onda de "dark ambient" feito só por Coelho e Costa (soa mal escrito assim, parece nome de uma funerária) mas assinaram como Sektor 304. O som nada tem haver com aquele Industrial Tribal caraterístico da banda e se fosse burro diria que estava a ser enganado - ou achar que o Zamia Lehmanni - Songs Of Byzantine Flowers não faz parte da discografia dos SPK (e o mesmo para o Metal Machine Music no caso do Lou Reed), ou seja, que uma banda não se pode expressar de outra forma que não seja pela tabelinha de convenções criadas por sim quando eram sete ou nove anos mais novas. É só estranho isto acontecer desta forma, com uma metade do grupo a fazer um som fora do normal da banda.
Para quem quiser levar com um ferro na tola neste CD não terão essa sorte, muito pelo contrário, é mais para estar a planar no sofá pensando em comboios suburbanos e o cinzento do quotidiano. Ou então se a cabeça estiver mais para lá do que para cá pode ser a banda sonora do Terminal Tower (publicidade não intencionada) porque passa por terras pós-apocalipticas com os restos mortais de civilização. Como ainda tive oportunidade de ir para o sofá ouvir com atenção não estou muito sensibilizado para isto. Uma oportunidade perdida? [Não sabe / não responde]

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Sector vivo



Sektor 304 : Live Reaction (New Approach; 2014)

É um disco ao vivo dos portuenses Sektor 304, o primeiro já que não se pode considerar Transmissions como um disco ao vivo apesar de uma gravação num registo de improvisação. Não, aqui é aquele clássico de banda Rock com o público a bater palmas sabe-se lá porquê depois de ter sido agredido com barulhos "industriais", chapas, lixo e plásticos amplificados, "power-electronics", baterias, contrabaixo e gritos metaleiros. Gravado no formato de quarteto, onde encontramos o Camarada André Coelho (co-autor do livro Terminal Tower), percebe-se que alguns temas foram gravados durante o ciclo de eventos Sonores mas não há mais referências  para saber concretamente quais os espectáculos captados - quer dizer, se fosse cromo, fazia-me de "e-stalker" e procurava na 'net todos os concertos da banda (que nunca foram muitos, creio) entre 2010 e 2012 (a única referência dada no CD) e tentava adivinhar a coisa. Como é óbvio sou fã da banda mas também tenho mais do que fazer... e desconfio que o objectivo não foi marcar um momento anal mas antes fazer um disco que soe ao vivo no sentido de ser mais espontâneo ("rock"?) e menos "cavernoso", tanto que há uma falsificação assumida na forma como as faixas são coladas entre elas para parecer de que se trata de um documento único. Com mais temas do Soul Cleansing do que o Subliminal Actions também há espaço para "acções sem título" (improvisações) e o som está menos pica-miolos do que nos discos de estúdio, claro que quem "esteve lá" deve ter perdido mais algumas células auditivas - olha, que não fossem estúpidos e ficassem em casa à espera que este disco saísse!
E já agora, o CD também vale pela fotografia de Teresa Ribeiro que mostra finalmente a banda percebendo-se que são pelo menos três gajos com rabos-de-cavalo a foderem o palco...

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Bestiário Ilustríssimo (2ª edição)

O Bestiário Ilustríssimo foi reeditado com uma nova capa e mais ilustrações. Está disponível ao público na nossa loja em linha e em Setembro nas livrarias. Entretanto para quem tiver aquela pancada que a primeira edição valerá muito mais no "futuro-reforma-pensão-para-pagar-os-estudos-ao-puto" pode recorrer às lojas que têm ainda essa edição (ver mais abaixo) ou podem comprar os últimos 5 exemplares AQUI.



capa de Joana Pires
  Bestiário Ilustríssimo é uma nova colectânea de textos sobre música de Rui Eduardo Paes: O melhor jornalista de música em Portugal. Um musicólogo reconhecido entre alguns músicos portugueses e virtualmente desconhecido do grande público. É fiel à sua integridade, porque só escreve sobre música que considera merecedora de atenção: por a considerar esteticamente bela, mas também porque a sua imensa cultura musical lhe permite adivinhar e percorrer novos caminhos no preciso momento em que estão a ser trilhados pelos músicos. Contudo, nada tem de elitista.
Entre os vários músicos referidos nos 50 textos que compõem este livro vamos encontrar Elliott Sharp, Merzbow, Mão Morta, RED Trio, Carlos "Zíngaro", Sei Miguel, Rafael Toral, Charlotte Moorman, Ahmed Abdullah, Aki Onda, Steve Lehman, Thisco, Nate Wooley, Genesis P.Orridge, Metthew Herbert, Nobuyasu Furuya,... entre várias outras referências que passam pelo multi-media, artes plásticas e banda desenhada.
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Volume -2 da colecção THISCOvery CCChannel
Publicado pela Chili Com Carne e Thisco, em Abril 2012, com prefácio de Marco Santos, ilustrações de Joana Pires e design de Ecletricks
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268p. p/b 22x16cm, capa a cores
ISBN: 978-989-8363-12-1
ISBN e-book: 978-989-8363-13-8
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PVP: 15 euros (desconto 50% para sócios da CCC, jornalistas e lojas) à venda na shop da CCC, Matéria-Prima, Fábrica Features, Letra Livre, Artes & Letras, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristovão, 18), FlurRastilho, Abysmo e Feira de BD e Poesia. Versão e-book na Todoebook.


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Historial : lançado no dia 17 de Abril 2012 na Trem Azul no âmbito do Festival Rescaldo ... segunda edição em Julho 2014 com nova capa e novas ilustrações ...
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Feedback : 4 estrelas em 5 no Público ... Nascidos não com o propósito de terem forma de livro, os textos que compõem "Ilustríssimo Bestiário" partilham aquela partícula de coerência e complementaridade que o incessante virar de páginas tão bem faz evidenciar. Escritos em Marte, como Marco Santos afirma no prefácio, estes 50 textos têm de facto origens (artigos, folhas de sala de concertos, notas de discos) e temáticas dispersas (apesar da música ser obviamente o centro gravitacional), mas a cola cósmica que os une, sob a forma de metáforas, analogias e uma forma muito peculiar de pensar a música - buscando sinestesia na arte e reflectindo as plurais utilizações da tecnologia (...). Os nomes que pululam nesta obra vêm de diversos meios - artes plásticas, literatura, banda desenhada,... - e, entre outros, contam-se Genesis P. Orridge, Matthew Herbert, John Cage, Marguerite Duras, Archie  Shepp, Miles Davies ou Zeca Afonso, tendo alguns deles ganho vida também através do traço de Joana Pires, complemento e espécie de concretização visual do universo rendilhado, denso e imagético de Paes in Flur ... os temas e os textos surgem de forma clara e fluída, apenas não percorrem os caminhos trilhados habitualmente, mas é precisamente por isso que são fundamentais, pois iluminam com uma nova luz coisas que nos passariam despercebidas ou que apenas intuiríamos. Em suma, um livro indispensável para todos aqueles que procuram uma escrita apaixonada sobre a música mais desafiante dos nossos sentidos. in Under Review

L'oeuvre de Rui E. Paes est une encyclopédie à entrées multiples. Le pacte de lecture qui nous est proposé semble être la volonté de démasquer le discours officiel sur l'art(s). Dans un pays qui vient d'abolir "Le Ministère de la Culture", la lutte contre la peste noire (ou fascisme/ dictature) ne peut passer par le repli sur soi. Le mérite et le courage de l'auteur c'est d'avoir mis son savoir et ses idées au service de la compréhension du monde qui nous entoure. Autrement dit, en autorisant un regard critique sur le début du XXI siècle. in Cosméticas ... Todos estos artistas, grupos, etc. no vienen adornados en una abultada y anodina lista de datos biográficos ni una recomendada selección de sus mejores discografías (“Este es un libro con personas dentro”). Al contrario, la excelente información obtenida en Bestiário Ilustrissimo a partir de la documentación y enfoque ensayista de REP, le da un valor personal y erudito al autor; y acertado y ameno a su obra, fundamental para la lectura del libro y conocimiento de estas músicas minoritarias. in Oro Molido



Rui Eduardo Paes
Com 30 anos de actividade repartida entre o jornalismo cultural, a crítica de música e o ensaísmo teórico, Rui Eduardo Paes é autor de vários livros sobre as músicas criativas, cobrindo o leque de tendências que vai do avant-jazz à música experimental, passando pelo rock alternativo, a música contemporânea, a new music, a música improvisada e a electrónica. É o editor da revista jazz.pt. É membro da direcção da associação Granular, dedicada à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas.
Vem colaborando com instituições como Fundação de Serralves, Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest e Casa da Música na elaboração de textos de apoio e folhas de sala. É o autor dos press releases da editora discográfica Clean Feed. Foi um dos fundadores da Bolsa Ernesto de Sousa, presidida pelo compositor e cineasta Phil Niblock (Experimental Intermedia Foundation), de que é membro permanente do júri em representação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Assessorou a direcção do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian e integrou o júri do concurso de apoios sustentados do Instituto das Artes / Ministério da Cultura para o quadriénio 2005-2008.

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

"É a originalidade do pecado que nos move..."

No princípio era o Forte. No princípio é sempre o Forte Prenestino, massiva construção novecentista situada na parte leste de Roma. 
Ocupado há quase 30 anos este Forte de desejos recebe todos os anos, desde 2004, o festival "Crack! fumetti dirompenti" (literalmente quadradinhos perturbadores, festival de BD, de todo o tipo de materiais gráficos impressos imagináveis, artes performativas, arte mural, instalação, buffonerie, piratarias e etecéteras...) onde a Chili com Carne esteve mais uma vez presente nos dias 19 a 22 de Junho. 

Dez anos depois da primeira edição um cartaz de símbolos mutantes anuncia um Génesis regenerativo. Depois dos Apocalipses e das Hordas das edições anteriores, o tema deste ano apela a um processo de união e fertilidade para a criação colectiva. 
Apesar de mais ou menos mambo-jambo, mitos de criação, primitivismos futuro-apocalípticos, que poderiam dar aso a discussões estético-filosóficas bem acesas, a prática desta terminologia surpreenderia muitos materialistas. De facto o Crack! é mesmo uma pujante criação colectiva auto-gerida e auto-produzida que, sem patrocínios públicos ou privados, joga no campeonato dos grandes eventos de massas mas pretende mudar-lhe as regras. 
"Gostaríamos de ter comido a maçã com gosto porque é a originalidade do pecado que nos move: a busca de conhecimento através das nossas visões."



( RISIS * performance de Alexander Ríos na Sala da Tè do Forte Prenestino )


Dez dias de workshops precederam o festival, onde dezenas de artistas e participantes de todo o mundo vieram trocar saberes, misturar-se, fortalecer redes e contactos, conspirar nos subterrâneos e aproveitar a hospitalidade do Forte e as suas excelentes oficinas. Dessas sessões de trabalho resultou, por exemplo, a publicação ABC da resistência visual. Ou então ficou-se simplesmente na esplanada improvisada entre o pátio e o laboratório de serigrafia, entre os chuviscos e o sol, a beber café e a desenhar o dia inteiro. Ou a sacrificar pizzas no forno pazuzu ao som de doommetal a ecoar pelo pátio. A observar e a participar nos fluxos do Forte. 

Nos dias do festival, uma azáfama percorre os pátios e as catacumbas. Nas celas subterrâneas, perfiladas pelos dois intermináveis corredores simétricos, ao longo da fachada frontal do Forte, estendem-se as centenas de bancas onde se encontra de tudo o que nesta galáxia há de auto-edição, BD, ilustração, arte antagonista. Milhares de pessoas. Autores confundem-se com visitantes, confundem-se com editores. De cela em cela, cada uma tem o seu ambiente específico, instalações, decorações, do mostruário mais clássico à cripta mais soturna. Para além dos concertos e recitais no pátio e na sala da tè, qualquer canto pode ser alvo de uma intervenção qualquer, da rodagem de um filme, de uma declamação súbita, de uma festa de garagem...  Carradas de coisas, um excesso de ruído visual completamente arrebatador que enche as baterias de todagente que por ali passa. Um combate de centenas de titãs. Onde cada pessoa leva dali um bocado de vida para a sua vida. 


o Crack! em imagens: aqui 

o Crack! visto pelo colectivo de animação Nikodio:

  

o cartaz do festival por Bambi Kramer:

Uma desgraça nunca vem só @ Público 8/8/14


Afinal o Imbecílon está atento às movimentações menos óbvias da música... e até deu 4 estrelas ao EP online de Stealing Orchestra e Rafael Dionísio! Ainda há esperança na imprensa portuguesa! Ou isso ou é a "silly season" em que vale tudo!

segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

Boring Europa ::: últimos 66 kilometros, digo, exemplares!!!

 

primeiro volume nova colecção da Chili Com Carne, LowCCCost, dedicada a livros de viagens
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de Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins e Sílvia Rodrigues


em Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França
8000 km / 15 dias


sobre a tour europeia da Chili Com Carne realizada entre 1 e 15 de Setembro 2010 nas cidades de Valência, Bolonha, Ljubjana, Pancevo, Graz, Berlim, Poitiers e Vigo.


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participações especiais de Karol Pyrcik, Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Simon Vuckovic, Vuk Palibrk, Christina Casnellie, Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz, e ainda com Gasper Rus, David Krancan, Matej de Cecco, Matej Lavrencic, Katie Woznicki, Letac, Boris Stanic e Johana Marcade nas comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo.


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banda sonora gratuita em linha: "A Grande Explosão" de Ghuna X via Phonotactics


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128 p. 23 x 16,5 cm impressas a azul escuro, capa impressa a branco sobre cartolina Dali bluemarine 285 gr com badanas; ISBN: 978-989-8363-11-4

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PVP: 10€ (50% para sócios, lojas e jornalistas) à venda no sítio da CCCFábrica Features, Matéria Prima, Letra Livre (ZDB), Mundo Fantasma, Kingpin Books, Neurotitan, Artes & Letras e BdMania.
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sobre o livro: a tournê europeia Spreading Chili Com Carne Sauce in Boring Europa tinha como objectivo principal divulgar o trabalho da Associação e dos seus artistas. Até pode parecer um acto desesperado de querer mostrar "à força" o nosso trabalho mas, desde sempre, a CCC trabalhou com projectos e autores estrangeiros – Mutate & Survive, Mike Diana, Greetings from Cartoonia, MASSIVE, Festival Crack, etc... O problema é que quase nunca vemos estes nossos amigos, dada a solidão imposta pela nossa posição periférica. Fomos dizer "olá" ao pessoal amigo! E aos que só comunicávamos por correio! E, claro, conhecer malta nova! Fomos percorrer 8000 Km de Europa em 15 dias oferecendo um pacote completo de cultura underground portuguesa a quem nos recebesse: concertos de R- e Ghuna X, festa animada com o unDJ MMMNNNRRRG, exposição de impressões e serigrafias, e, claro, uma enorme selecção de zines, livros e discos independentes. Em troca queríamos apenas simples alojamento, comida (se fosse possível à organização) e dinheiro das entradas para os espectáculos. Se os punks e metaleiros fazem isto porque não podemos fazer a mesma coisa com livros? Get in the van!


Decidimos chamar a coisa de boring, pelo sim pelo não, porque vivemos numa uniformização cultural capitalista à escala global - como tão bem ironiza Jakob Klemencic algures no livro - em que as identidades nacionais ficaram reduzidas a meia dúzia de artefactos rurais e rituais anacrónicos prontos para serem vampirizados pelos comportamentos fotográficos dos “turistas = terroristas”.


Desde o início pensámos que só podia ser bom editar um livro com os desenhos dos viajantes - um relato on the road das pessoas com quem nos cruzámos, das cidades e dos países que visitámos, etc... Era impossível de falhar: seis pessoas a desenhar, seis livros de esboços fundidos num livro "oficial". Pura ingenuidade! A excitação de conduzir, o esforço físico de alguns trajectos, a desistência da Sílvia Rodrigues, logo ao terceiro dia, e a falta de confiança em desenhar da maior parte dos participantes deixou-nos apenas com UM caderno de esboços da Ana Ribeiro. Todas as outras participações tiveram de ser feitas à posteriori, complicando com os prazos pessoais e profissionais de quem gozou estas férias diferentes. Juntámos textos, BDs, desenhos “acabados” bem como “esboços” da Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins e Sílvia Rodrigues; e bds de autores estrangeiros que relatam a recepção da nossa “caravana” - Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Vuk Palibrk e Christina Casnellie. Outros cederam-nos desenhos ou bds sobre viagens para enriquecer esta edição - Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz. Compilámos as melhores BDs-cadáver-esquisitos ou comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo - são bds feitas numa sessão com várias pessoas em que cada um desenha uma vinheta continuando o trabalho dos anteriores perdendo-se sempre o controlo do avanço da “estória”.
Em "Lissabon", a Karol Pyrcik ficou a tomar conta das gatas do Marcos e da Joana, e a fazer um diário gráfico sobre a sua estadia, contrapondo as nossas visões, mas fez batota e produziu umas divertidas ilustrações sobre futilidades lisboetas e quotidianas.
Criámos um inovador “Frankenstein comix” ou uma Babel impressa? Em breve teremos reacções a este livro. Esperamos ter surpresas exteriores tão agradáveis como as que tivemos quando chegávamos aos sítios durante a digressão. 


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Apoios (tour e livro): GRRR Program + Centro Cultural de Pancevo, IPJ, MMMNNNRRRG e Neurotitan

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Historial: Realização da tour Spreading Chili Sauce around Boring Europa (1-15 Set) ... Lançamento 27 de Março na MapDesign (Lisboa) e 2 de Abril na Feira do Jeco (10 anos dos Maus Hábitos) ... referência no Gabinete de Crise ... Cabaz Underground (sorteio dia 3 de Abril nos Maus Hábitos) ... reportagem na Câmara Clara (RTP2) ...

Feedback : reacções de viajantes aqui ... I love tour books about la merde de la europa / jes we can Igor Hofbauer ... O nome dificilmente poderia ser mais sugestivo e paradoxal (...) Porque, por mais quilómetros que façamos (...) o Velho Continente é cada vez mais um corpo uno. Ainda assim, o que vem dentro das páginas (...) é tudo menos entediante. Muitas ilustrações, desenhos e BD, uma forte componente gráfica e um sem-número de diálogos impróprios para gente sem sentido de humor. Tudo a duas só cores, azul e branco. Rotas & Destinos ... (...) espécie de périplo autoreflexivo na forma mista de diário/ reportagem sobre uma viagem por uma Europa de movimentos independentes, que se transforma numa espécie de mini-manifesto (é algo pomposo, mas adequado) sobre modos de pensar a arte, a vida, o mundo. Destaque aqui para o importante trabalho de Marcos Farrajota, que, com todas as suas limitações formais, tem aqui um papel crucial ao unir as diferentes contribuições e preencher espaços em branco, destacando-se ainda o seu olhar sobre as várias contra-culturas que o grupo vai encontrando na viagem, entre a extrema empatia/admiração e o desprezo ácido (o episódio de Berlim é particularmente elucidativo). Sem este fio condutor o livro seria uma amálgama de acasos individuais, e não faria grande sentido. JL ... (...) é um livro que deve tanto à mítica Torre de Babel como às auto-estradas europeias, misturando várias línguas e registos tão diversos (...) Surpreendentemente, o resultado é tão coerente como são caóticos os dias aqui retratados. Mais do que uma colagem de histórias e fragmentos, Boring Europa é um livro de viagens, uma aventura em 8000 quilómetros de estrada e, sobretudo, um contributo relevante para se pensar a Europa e as suas relações internas. Agora que a ajuda entre países (mais ou menos forçada) anda na boca de toda a gente, seis pessoas e uma carrinha dizem mais sobre as vias possíveis para o encontro e sobre a capacidade de nos conhecermos para lá das fronteiras do que todas as directrizes da União Europeia. Sara Figueiredo Costa in Ler ... Hace casi un año tuve la oportunidad de presenciar una de las exposiciones más atrevidas y frescas de ilustración y cómic de todo el tiempo que llevo dedicado al mundo gráfico y a la autoedición. Acostumbrado a una corrección profesional y buen rollista, que muchas veces rosa el aburrimiento y mojigatería, que encuentro habitualmente en la gráfica convencional -en la prensa, en la calle y en las estanterías de las librerías-, la expo-guerrilla del colectivo portugués Chili Com Carne resultó ser un contundente puñetazo visual e ideológico que demostraba, con la práctica, otras maneras de entender la ilustración y el quehacer visual. La exposición duro sólo dos días y era la primera parada en el tour "Spreading Chili Sauce around Boring Europe" que llevó a los CCC por España, Serbia, Austria, Francia, Italia, Eslovenia y Alemania, en 15 días y cuyo diario de viaje, publicado bajo el título "Boring Europe", cuenta el cómo, cuando, cuanto y por qué recorrer alrededor de 8000 km con una furgo cargada de fanzines, y puede servir como guía de lo que es la autogestión cultural. Martin López in Bólido de Fuego ... Quase todas as histórias tocam, portanto, aspectos autobiográficos, referentes aos acontecimentos destas visitas, mas ao mesmo tempo são também testemunho de variadíssimas práticas alternativas. Não apenas da cultura (música, artes visuais, festas, feiras) mas também das práticas propriamente ditas. Ou seja, da angariação de fundos, da organização de eventos, na forma como se gere um fundo de maneio, nos modos como se criam alternativas ao(s) mercado(s) convencional(ais), como se recebem os convidados, da cozinha à dormida, e sem esquecer aspectos de turismo (...) E além disso, as jantaradas e conversas em torno de cervejas e cigarros, que levam a discussões breves mas que apontam a interessantes tomadas de posição face aos estereótipos, expectativas e jogos de projecção que o encontro de “nacionalidades” forçosamente fornece. São muitos os pormenores estranhos e curiosos deste livro, deste a sua forma de organização, à “sinalização” que identifica as autorias, até ao tal orçamento ou custos da aventura, e os dados dos espaços visitados, que poderia até funcionar como convite à visita dos leitores (...) Pedro Moura in Ler BD


 exemplos de páginas:

domingo, 10 de Agosto de 2014

Satanic payola


Não costumo divulgar bandcamps e formatos digitais por todas as razões do mundo mas quando aparece algo assim vale bem a pena: os Ocelot  Kid gravaram mais um "disco", desta vez um "split" com uns tais de Leaf, e continua a ser uma bomba Screamo-Stoner até para quem não curte Screamo, uma boa síntese de sons pesados dos últimos 40 anos, de Black Sabbath a At The Drive-In, de Discharge a Melvins com a vantagem de ser feito por apenas dois putos enfezados do Montijo. Ao vivo são mega-malhete como provararam o ano passado ao fazerem primeira parte de Thisquietarmy no Sabotage Club! Por isso: editores e promotores de espectáculos, peguem nisto invés da imundíce garageira e pop/rock que prái anda!

sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Terminal Tower na Bertrand




I define Inner Space as an imaginary realm in which on the one hand the outer world of reality, and on the other the inner world of the mind meet and merge. Now, in the landscapes of the surrealist painters, for example, one sees the regions of Inner Space; and increasingly I believe that we will encounter in film and literature scenes which are neither solely realistic nor fantastic. In a sense, it will be a movement in the interzone between both spheres. J.G. Ballard

Com este 16º volume da Colecção CCC dá-se uma transformação na própria colecção. Se entremeávamos um livro de literatura por um gráfico logo a seguir, durante 14 anos, com quase sempre com os livros do Rafael Dionísio e quase sempre com as antologias de BD, a natureza da obra deste novo livro Terminal Tower de André Coelho e Manuel João Neto, deixa de fazer sentido a nossa lógica editorial ou até a distinção dos formatos dos livros literários dos gráficos.

Terminal Tower teve um processo criativo entre o artista e o escritor fora da lógica da banda desenhada - em que há um argumento para ser adaptado para desenho em sequência. Assim sendo, as ideias do livro foram sendo construídas em simultâneo pelos dois autores, tendo como premissa a de um homem isolado numa torre em estado de alerta.

Partindo dessa torre, Coelho foi criando alguns desenhos que despoletaram ideias narrativas e que potenciaram outros desenhos que por sua vez geriam as indefinições das narrativas que rodeiam esse contexto, numa espiral criativa.

A ideia central do livro é o delírio engatilhado pela paranóia, sem que se perceba se o despertar dos mecanismos da torre é real ou se existe apenas na cabeça do homem isolado na torre, pois nada parece funcionar, tudo parece uma ruína do futuro em que se cruzam referências decadentes aos universos de Enki Bilal, J.G. Ballard (1930-2009) e da música Industrial - não tivessem os dois autores ligados a esse tipo de música através do projecto Sektor 304.

Historial: lançado no dia 31 de Maio no Festival Internacional de BD de Beja com exposição dos originais ... seguido de outras exposições na El Pep / Imaviz Underground (Julho) e em Setembro estará no Treviso Comics Fest e no Amplifest (Porto) ...

Feedback: (...) Depois da bomba, os estropiados – depois da expilação nuclear, os mutantes. A monstruosidade é uma sátira cruel à diversidade, uma fantochada feita de ruído. Não tem beleza. Não tem significado. A não ser a beleza do aleatório e o significado que decidimos impor. Criar relevo é inventar significados: vivemos numa realidade imaginada, mas as ficções que criamos não são mentiras, são exofenótipos – não se pode ser humano sem uma torre, mas aceitar a torre é aceitar o monstro. Aceitar o apocalipse. Nada é mais fácil. David Soares / Splaft! ... (...) a NASA tinha inventado o super-negro. (...)  é a BD que está a ir mais longe na busca de um super-negro psicológico, virtual… (...) Logo ao olhar para a capa somos chupados para o seu negrume, que se vai adensando ao longo das primeiras páginas. Percebemos de imediato que estamos num cenário bélico, pré ou pós-apocalíptico… Rui Eduardo Paes / Bitaites ...  Neste livro experimental os códigos da BD são levados a um extremo próximo da abstracção. Não é simpático para o leitor, pois deixa quase tudo em aberto e descarrega nele imagens fortíssimas e acutilantes. (...) Um dos traços da maturidade do género é a amplitude de um campo de expressão que vai do pueril intencional ao questionar dos limites, zona de fronteira onde este Terminal Tower tão bem se insere, mais próximo de uma sequência pictórica do que da narrativa linear. Lendo-o, ou sendo mais preciso, construindo mentalmente uma possibilidade ficcional a partir da iconografia, ressoava-me na mente o ruído elegante do noise industrial (...) Mais do que uma história, este livro é uma experiência do tipo mancha de Rorschach. Vê-se o que se espera, mas também se vê o que se sente no íntimo. E sublinho: contém ilustrações de tirar o fôlego, que se destacam no absoluto preto e branco mate do papel impressão mas se vistas no tamanho real e media original ainda são mais deslumbrantes. Artur Coelho / Intergalatic Robot

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ISBN: 987-989-8363-27-5
144p. p/b + cores, 16,5x23cm
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PVP : 15 euros (50% desconto para sócios CCC, lojas e jornalistas) à venda na loja online da CCCMundo Fantasma, Matéria Prima, Louie Louie (Porto), BdMania, NAU, El Pep, New Approach Records, Utopia, Bertrand e brevemente na FNAC, Letra Livre, Artes & Letras,...
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Exemplos de páginas:

Zona de Desconforto


Eis novo livro da nossa colecção de livros de viagem para quem gosta de viajar sem apanhar transportes e gastar dinheiro, a LowCCCost.


Zona de Desconforto é uma recolha de relatos de autores de Banda Desenhada que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal


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Os autores apesar de terem sido "obrigados" a trabalharem em registo autobiográfico para relatarem as suas experiências, que vão da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas, ainda assim o estilo pessoal de cada autor não foi prejudicado.

Organizado por ordem cronológica, o livro começa com André Coelho, que estudou em Barcelona, em 2006, e expõe as questões nacionalistas catalãs, mas a experiência similar de Amanda Baeza no País Basco (estudou em Bilbao, em 2010) é mostrada de uma forma oposta e "leftfield".

Holanda vai ser uma coincidência de país para a "globe trotter" Christina Casnellie (em 2006) e um ano mais tarde, José Smith Vargas, maior é a coincidência é que  ambos desmontam a sociedade holandesa e a "pan-ibérica".

Londres também é uma "coincidência" para encontramos Ondina Pires (ex-Pop Dell'Arte, ex-The Great Lesbian Show) entre 2008 e 2010, e Francisco Sousa Lobo (vencedor do concurso "500 paus") entre 2010 e 2013, que usam "comic relief" q.b. para contar a depressão que se sente na capital inglesa, e no caso de Lobo esta sua BD é uma "companion" para o badalado romance gráfico O Desenhador Defunto. Mas antes, David Campos complementando a sua experiência da Guiné-Bissau (relatada no Kassumai) visita o resort  de Cap Skirring (Senegal) em 2007 para alertar-nos da exploração não só de recursos económicos mas também sexuais de África.

Em 2013 ainda temos as instrospecções políticas de Tiago Baptista em Berlim, durante uma residência artística; e mais extremas as deslocações sul-americanas de Júlia Tovar para Buenos Aires, decidida a criar a sua família, e com alguma ponta de ironia Daniel Lopes mostra o Brasil como o "futuro", na sua recente visita profissional, como académico.

Esta edição foi coordenada por Marcos Farrajota, frustrado e impotente em testemunhar a emigração, em alguns casos forçada, dos seus amigos e conhecidos à procura de melhores condições de vida, num país que deixa um filha-da-puta de um político alarvar bitaites de que "o melhor que os jovens portugueses têm a fazer é emigrar".

O livro não tem uma "agenda política" porque deixa que o relato de cada autor siga o seu rumo, com saldo positivo ou negativo, deixando ao leitor a interpretação que desejar.

Longe de nós impormos seja o que for...

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Arranjo gráfico: Joana Pires; Capa de João Fazenda; Apoios do IPDJ, Alt Com / Tusen Serier

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o livro custa 10€ (50% desconto para sócios da CCC, jornalistas e lojas) à venda na loja online da CCC e na Palavra de Viajante, B Shop (CCB), Artes & Letras, Pó dos LivrosEl Pep, Trem Azul, Mundo Fantasma, LAC, FNAC, Feira de Poesia e BD, Bertrand e em breve na Letra Livre e Kingpin Books.

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Historial: lançado na Palavra de Viajante, a livraria mais bonita de Lisboa a 5 de Abril de 2014 ...

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Feedback: Grande edição! Podes dizer ao Sousa Lobo que graças a ele voltei a acreditar na BD portuguesa. Que estouro. André Coelho (por e-mail 04/04/14) ... já li o livro, falta o Francisco que guardei para o fim, gostei bastante, é bom os trabalhos serem tão diferentes, acho que as histórias conseguem mesmo levar-nos para outros tempos e espaços geográficos, fizeram-me sentir mesmo fora daqui e todas as problemáticas que isso acarreta, não que sentisse um profundo envolvimento mas consegui deslocar-me... isso é bom. como se de estória em estória saltasse de cidade em cidade. Depois vou ler a história do Francisco e reler tudo de seguida a ver como é... Tiago Baptista (por e-mail 04/04/14) ... 'Tá bem apanhado, o título. Li num parque rodeado de turistas, a pensar que ia compensar a sensação "Portugal, Inatel da Europa". Não tenho a certeza, e parece que apanhei a sensação turística no obverso. O Lobo, se calhar porque parece ter mais espaço que os outros, apanha bem a coisa 'tuga: é como rir de alguém que tem um problema sério. Fora isso acho que o livro caiu ao chão quando li a história dele, de tão pesada que era. O género autobiográfico é fodido e em vez de heróis ficaram os episódios. O Baptista e o Coelho parece que quiseram meter lá os heróis em vez deles. A Amanda Baeza é um pequeno ovni... já tinha falado com ela sobre este bolo basco pesadíssimo, que estou a pensar fazer um dia. Outros, tendo estilos que me pareceram familiares, não retive tanto. Curti algumas piadas da história da Tovar, e se já vi a cena de estar nu noutro lado, ri na mesma quando vi. Fixe o traço do Campos e a deambulação anti-Club Med. Fiquei a saber o que é um flessenlikker e vou ver se arranjo um, para poupar uns trocos e viajar mais. Astromanta (por e-mail 17/04/14) nice book, is an architecture/city sketchbook of tales Valério Bindi do Crack Festival (e-mail 20/04/14) ... Os autores destas histórias a vermelho, nada inocente, seguramente, poderão usar diferentes intensidades dessa leitura dupla. Podemos lê-las como pequenos apontamentos autobiográficos ou impressões do “lá fora”, mas perder-se-ia parte do seu poder colectivo. Mas é na sua conjunção, e no seu gesto editorial total, que percebemos a responsabilidade assumida na identificação do desconforto apontado. Pedro Moura / Ler BD




André Coelho

David Campos

Francisco Sousa Lobo

Amanda Baeza

Tiago Baptista

Daniel Lopes


Usted #7


Esteban Hernández
Auto-edição; Outono 2012

Costuma-se dizer que os "espanhóis são mais que as mães", uma verdade de La Palice que se pode aplicar a qualquer país ou povo. Se calhar só quer significar que os portugueses quando vão a Espanha para não ficarem de boca aberta, como um burro a olhar para um palácio e não alarvarem algo do tipo "porra, Espanha é enorme e Portugal é uma caganita" preferem dizer esta treta que nada diz. Também se poderia dizer "os valencianos gráficos são mais que as mães" só para dizer que Valência é uma cidade cheia de autores de BD e ilustradores, para além de ter um Museu da Ilustração e ruas dedicadas a artistas gráficos.
De memória está lá a malta do Arght!El Monstruo de Colores No Tien Boca, Media Vaca, o camarada Martin López Lam, o Tumba Swing, Arròs Negre (que este ano ganhou o Prémio de Melhor Fanzine no Festival de BD de Barcelona), Buen Dolor, e claro o Tenderete... A acrescentar a este lista de qualidade e activismo editorial está Esteban Hernández e as suas publicações, em especial Usted, fanzine de qualidade irrepreensível que junta BDs deste autor (publicadas noutros sítios?).
Tirando uma ou outra de género humorístico que nada me dizem, as outras BDs que oscilam entre a autobiografia e a ficção - e pelo meio a auto-ficção - e mostram um autor que domina completamente as convenções da BD com um estilo gráfico comercial q.b. O que é estranho é ver esta compilação que parece um "comic-book" à antiga (ou seja como acontecia com os "comics" da Fantagraphics e Drawn & Quarterly nos anos 90) sendo uma publicação com ar e conteúdo super-profissional mas auto-editado! O modelo económico não bate certo, é simples concluir que o autor não vive da comercialização das suas edições. Logo parece ser um luxo ter este "comic" como uma improbabilidade editorial.
O trabalho do autor são histórias urbanas de coincidências parvas - não são todas elas assim? o Paul Auster não inventou nada! - com resultados bastante divertidos e inteligentes. Mais um valenciano para ir seguindo!